Agosto 8, 2008

Buscamos consolo mesmo em lugares-memória remotos

Regresso com um excerto de um livro que ando a ler. Uma biografia sobre o último líder Cátaro no Sul de França:

“L’ organisation religieuse des Eglises des Bons Hommes est marquée d’archaïsme chrétien. Leur enseignment, dont le corpus constitue l’ entendensa del Be – l’entendement du Bien -, garde lui aussi la mémoire de débats internes au christianisme ancien: docétistes, ils nient l’humanité du Christ, au profit de sa seule nature divine – ou angélique. Dualistes, ils prêchent le «royaume de Dieu, qui n’est pas de ce monde», mais qui est la vraie patrie céleste dont les âmes des hommes gardent la nostalgie. Anges déchus ou «brebis perdues d’Israël», toutes ces âmes sont en effect également bonnes, car créées par Dieu puis dérobées par le diable et par lui emprisonnées dans l’exil de ce bas monde, dont il est prince. Le rôle d’apôtres des Bons Hommes est de sauver ces âmes, toutes les âmes, de les ramener au bercail, par leur prédication de l’Evangile et par leur sacrement de baptême et de pénitence – le consolament -, marque du pouvoir  de lier et délier que leur a conféré le Christ.”

“Le Dernier des Cathares – Pèire Autier”, de Anne Brenon (pag. 13)

Julho 8, 2008

Presente envenenado?

No Domingo passado, numa cafetaria, uma Senhora muito simpática ofereceu um chupa-chupa ao Bias. Um gesto gentil e carinhoso que muito agradou ao meu filho e que nos comoveu a nós, pais.

Estando nós a caminho do almoço, o chupa-chupa foi deitado para dentro da minha mala de fim-de-semana e por lá ficou, esquecido. Até hoje.

Nas suas habituais deambulações pela casa, o Bias descobriu o doce presente de há uns dias e quis, obviamente, saboreá-lo.

Por um qualquer rasgo de inquietação, o Tom leu os ingredientes do chupa-chupa e resolveu fazer uma pequena investigação. Eis os resultados: 

e132
Commonly added to tablets and capsules; also used in ice cream, sweets, baked goods, confectionery, biscuits. It is also used diagnostically to check for coloured urine in kidney function tests.
A blue synthetic coal tar dye, normally produced by a synthesis of indoxyl by fusion of sodium phenylglycinate in a mixture of caustic soda and sodamide.
(…)
Best avoided by people with allergy reactions as it may cause skin sensitivity, a skin rash similar to nettle rash, itching, high blood pressure and breathing problems.
Not recommended for consumption by children.
Banned in Norway.

e124
A red synthetic coal tar or azo dye found in dessert toppings, jelly, salami, seafood dressings, tinned strawberries and fruit pie fillings and packeted cake mixes, cheesecakes, soups and trifles.

It appears to cause allergic and/or intolerance reactions particularly amongst those with an aspirin intolerance or asthmatics. Carcinogen in animals.
Not recommended for consumption by children.
The Hyperactive Childrens Support Group belive that a link exists between this additive and hyperactive behavioural disorders in children.
It is banned in Norway and the United States.

e102
A synthetic yellow azo dye found in fruit squash, fruit cordial, coloured fizzy drinks, instant puddings, cake mixes, custard powder, soups, sauces, ice cream, ice lollies, sweets, chewing gum, marzipan, jam, jelly, marmalade, mustard, yoghurt and many convenience foods together with glycerine, lemon and honey products. It can also be found in the shells of medicinal capsules. It can also be used with Brilliant Blue FCF, (E133) to produce various green shades e.g. for tinned processed peas.
Tartrazine appears to cause the most allergic and/or intolerance reactions of all the azo dyes, particularly amongst those with an aspirin intolerance and asthmatics. Other reactions can include migraine, blurred vision, itching, rhinitis and purple skin patches, (because of this more use is now being made of Annatto (E160b). In conjunction with Benzoic acid (E210) tartrazine appears to create an over-activity in children.
Not recommended for consumption by children.
The Hyperactive Childrens Support Group belive that a link exists between this additive and hyperactive behavioural disorders in children.

Whilst being a very commonly used colour in the UK its use is banned in Norway and Austria.

Julho 6, 2008

A família de Martin Luther King

Julho 6, 2008

A família Kennedy

Julho 6, 2008

Adopção inter-racial

Tenho andado a seguir o tema através da imprensa britânica. Tem havido polémica.

Uma primeira razão para tal: as estatísticas do costume. Um maior número de crianças nascidas de pais de minorias étnicas encontram-se em lares de acolhimento, com possibilidades de adopção francamente reduzidas. Muito particularmente se se trata de rapazes com mais de sete anos de idade.

Quem adopta – famílias brancas de classe média – prefere manter uma coerência cromática no alargamento do lar, em muitos casos por forma a evitar uma óbvia aparência de adopção.

Uma segunda razão: os filhos de adopções inter-raciais dos anos 60 e 70 começam agora a dizer de sua justiça, apontando sofrimentos que viveram sozinhos durante muitos anos. Por se terem sentido isolados e inadaptados aos ambientes das famílias que os receberam e por se terem sentido deprivados de uma cultura que era a da sua família biológica.

O assunto é, sem dúvida, espinhoso. Tanto mais porque é somente o espelho de um problema mais geral de racismo e desigualdades. No entanto, é minha profunda convicção que as adopções inter-raciais não são erradas nem devem ser evitadas. O amor pode não ser tudo, mas já é o início de muita coisa. E quanto aos sentimentos de não pertença e alienação, eles estão lá sempre: numa sociedade de modelos brancos, qualquer diferença causará uma luta interior penosa e dolorosa. Somos nós a crescer com o fardo do mundo que nos rodeia. E o fardo não é menor só porque temos uma família da mesma cor. Porque haverá sempre o Outro que repara na nossa cor ou nas nossas feições “exóticas”.

Digo mais, condenar as adopções inter-raciais é como regredir e condenar o casamento inter-racial, por medo da mestiçagem que daí resulte. Muito pelo contrário, devíamos aplaudir sempre a mistura de cores. De quaisquer cores. Só assim o futuro lutará o medo e o nojo da diferença. Quando todos nos sentirmos unidos a alguém de outra cor. Quando nos conhecermos melhor e pudermos confirmar diariamente a perfeita igualdade dos seres humanos.

Um ponto, porém, importante é a necessidade de evitar a abordagem “colour blind”. Um casal branco que adopta uma criança de outra cor deverá ser sensibilizado para os eventuais sofrimentos identitários que a criança possa vir a padecer, por força de um mundo de categorias, dicotomias e modelos muito bem definidos. Deverá ser sensibilizado e dever-lhe-ão ser dadas ideias sobre como reagir perante a dor da criança vilipendiada, na escola, na rua ou dentro da própria família. O assunto é sério demais para ser varrido para debaixo do tapete e convenientemente esquecido por entre o pó. O racismo é muitas vezes imperceptível para quem nunca o sofreu. Mas rói e destrói por dentro. É uma agonia lenta que pode terminar na destruição completa do sistema de auto-estima. Deve ser falado, revelado, estudado, analisado, condenado. E, como em tantas outras situações, a vítima não deverá sofrer só.

 

Junho 26, 2008

Um boa notícia, um passinho em frente

“Great apes should have the right to life and freedom, according to a resolution passed in Spanish parliament, in what could become the first national legislation to enshrine human rights for chimpanzees, gorillas, orang-utans and bonobos.

The environmental committee in the Spanish parliament has approved resolutions urging the country to comply with the Great Apes Project, a scheme founded in 1993, which argues that “non-human hominids” should enjoy the right to life, freedom and not to be tortured.

The project was started by philosophers Peter Singer and Paola Cavalieri who argued that the ape is the closest genetic relative to humans – and display emotions such as love, fear, anxiety and jealousy – and should be protected by similar laws.

The resolutions have cross-party support and it is thought they will become law, meaning that potential experiments on apes in Spain will be banned within a year, according to a Reuters report.

“This is a historic day in the struggle for animal rights and in defence of our evolutionary comrades which will doubtless go down in the history of humanity,” Pedro Pozas, the Spanish director of the Great Apes Project said.

“We have no knowledge of great apes being used in experiments in Spain, but there is currently no law preventing that from happening.”

Using apes in circuses, television commercials or filming will also be banned and while housing apes in Spanish zoos, of which there are currently 315, will remain legal, those who support the bill have said the majority of the conditions they are living in will need to improve substantially.”

Fonte: Edição online do jornal britânico The Guardian - 26.06.08

Só por isto, logo à noite vou torcer pela equipa de Espanha :-)

 

 

 

Junho 25, 2008

Addis Ababa Fistula Hospital

Este livro conta a história de um casal de médicos, Reginald e Catherine Hamlin, que fizeram da Etiópia o seu lar e lá se dedicaram a devolver saúde e dignidade às doentes de fístula.

A fístula é uma doença praticamente erradicada do mundo ocidental mas que afecta milhões de mulheres nos países menos desenvolvidos. É principalmente provocada por partos difíceis, durante os quais as mães que não têm qualquer tipo de apoio médico acabam por dar à luz um nado morto, após dias de trabalho de parto. Estes partos extremamente prolongados e a  permanência dos bebés já mortos no útero provocam lesões internas inimagináveis, sendo uma delas a abertura de um buraco (fístula) que permite a passagem incontrolada de fezes e urina pela vagina.

Sem cura, as mulheres que sofrem deste problema são condenadas a uma vida de solidão e isolamento, por causa do cheiro abominável que permanentemente exalam. Não só as comunidades as afastam, como elas próprias desfalecem sob o peso da vergonha.

Em 1974, Reginald e Catherine Hamlin construíram um hospital inteiramente vocacionado para estas mulheres e desde então têm vindo a distribuir esperança e vidas renovadas em quantidades generosas. Gratuitamente.

http://www.fistulafoundation.org/index.html

Junho 24, 2008

As reuniões

Por dever de ofício, participo em várias reuniões. Em volta de várias mesas e quase invariavelmente em salas com ar condicionado, tenho tido a possibilidade de conhecer as mais diversas pessoas.

Feliz ou infelizmente, nessas ocasiões, sofro de uma disfunção profissional tremenda. Enquanto mantenho um nível de vigília mínimo relativamente ao discurso sintetizado na agenda de trabalho, voo em direcção às pessoas que não conheço e, qual fantasma inconveniente, demoro-me a apreciá-las.

Não raro, apaixono-me por toda a gente. Porque quase sempre, vistas do meu ângulo preferido, as pessoas são seres misteriosos e atractivos. Refiro-me à perspectiva de um observador que se coloca de tal forma que consegue ver o perfil dos olhos do observado e assim comunga do seu abraço ao mundo.

Logo de início, não há olho humano que não adquira uma cor e um brilho particulares quando visto desta posição. Podendo nós compreender a abóbada de cristal que cobre e protege o olho, apercebemo-nos de imediato dos jogos de luz e profundidade que ela permite e enfatiza.  Numa réplica quase perfeita das ilusões da água, quando sobre ela se derrama o sol. 

Esta percepção da pequenina abóbada do olho dá-nos também a ideia de um refúgio, eu diria de um palácio, de um lugar onde sabemos residir aquele último reduto do Outro absolutamente incaptável pelo Eu. Não nos esquecemos nunca de que “os olhos são o espelho da alma”. Nessa altura, os efeitos cromáticos, já de si grandiosos, aliam-se aos efeitos dramáticos do teatro relacional. Um imenso espectáculo de adivinhas. Quem é aquela pessoa? Em que pensa? Em que pensou? Como me vê a mim?

E depois não se trata apenas de contemplar os olhos. Há que atender à proximidade das rugas; ao cansaço que, de perfil, não se esconde; um cabelo que por esquecimento se encontra fora de ordem; a mão pejada ou não de jóias; a espontaneidade do sorriso.

Sobretudo, nas minha reuniões, tenho um sentimento agudo da particular humanidade de cada um dos intervenientes. Se têm de sair mais cedo para ir buscar os filhos ou se querem continuar ali para evitar uma temida solidão. É nisto que penso na maior parte das vezes, enquanto me esforço por manter o ouvido profissional ligado. Nas mesas cheias de pessoas a discutir em nome de nações. 

 

Junho 22, 2008

Uma família real

Junho 22, 2008

A Terceira Vaga

Foi uma entrevista na TSF que me aguçou a curiosidade. Ouvir Alvin e Heidi Toffler a falar da sua concepção de uma terceira vaga levou-me a querer, de imediato, conhecer melhor a ideia.

Felizmente, o meu pai já tinha o livro. E já era de há tanto tempo. 1980 é a data do copyright.

Não obstante a idade do livro – quase trinta anos para um livro de análise social é velhice – entendi que seria uma leitura indispensável. Que mais não fosse, ajudar-me-ia a compreender o pensamento que ia agora morrendo ou perdendo vivacidade.

Como me preocupam particularmente as questões da escola (ou não fosse eu a mãe de um menino de três anos), retirei um bocadinho do texto que gostaria de colar aqui. Trata-se de uma análise do porquê da difusão das escolas no enquadramento da afirmação da Segunda Vaga – a Vaga do Industrialismo. 

É claro que o Autor reconhece a imensidão de oportunidades que a oferta de instrução veio trazer a milhões de pessoas no planeta, no entanto o esforço dele orienta-se no sentido de compreender as forças que permitiram desenvolver em tão grande escala a era do Industrialismo. Assim, identifica aquilo que designa como o curriculum encoberto dos programas escolares – a intenção primordial do estabelecimento da rede escolar. 

“… à medida que o trabalhador se transferia dos campos e de casa, as crianças tinham de ser preparadas para a vida na fábrica. (…) Se a gente nova pudesse ser previamente adaptada ao sistema industrial, isso facilitaria imensamente, mais tarde, os problemas da disciplina industrial. O resultado foi outra estrutura fulcral de todas as sociedades da Segunda Vaga: a educação em massa.

Estruturada segundo o modelo da fábrica, a educação em massa ensinava escrita, leitura e aritmética básicas, um pouco de História e outras matérias. Este era o curriculum “descoberto”. Mas sob ele encontrava-se um curriculum invisível ou “encoberto”, muito mais fundamental. Consistia – e ainda consiste em muitas nações industriais – em três cursos: um de pontualidade, outro de obediência e outro de trabalho de rotina, repetitivo. O trabalho fabril requeria trabalhadores que chegassem a tempo, especialmente gente para as linhas de montagem. Requeria trabalhadores que aceitassem ordens sem as questionar, uma hierarquia gestora. E requeria homens e mulheres preparados para mourejaren em máquinas ou em escritórios, a desempenhar operações brutalmente repetitivas.” (in A Terceira Vaga, de Alvin Toeffler, Ed. Livros do Brasil, pag. 33).

É-me particularmente cara a visão de uma educação para a Humanidade e não para o mercado. Não quero com isto dizer que não valorize a disciplina e as necessárias etapas repetitiva e dogmática que julgo deverem integrar qualquer programa de ensino equilibrado. Valorizo-as e muito, porquanto permitem ao ser humano estruturar-se e adquirir e desenvolver capacidades. 

Mas criar crianças para a fábrica ou para o escritório é desumano. Não seremos todos muito maiores do que isso? 

Alvin Toffler argumenta que esta escola que ainda temos é uma escola do passado, obsoleta. Uma instituição que nos fará estremecer perante as forças da Terceira Vaga, a nova Era que já se começou a instalar.