Ilusões

No outro dia, que era uma noite corrijo, quis fumar.

Quis aprisionar o tempo na lentidão do fumo e dispor-me a esvaziar o horizonte. Fumar era tão somente essa desculpa para a inactividade. A desculpa perfeita que envolvia, de forma difusa, o arder de um fogo directamente dirigido a mim.

Queria fumar, pensei, como tantos que o fizeram antes de mim e ao meu redor. Com uma e muitas ideias na cabeça. A postos para relançar no mundo uma nova trama e um melhor enredo. Todos no fogo a recriar ondulações abstractas de pensamento. Religando os elementos na ausência da consciência actuante. Convocando à boca a labareda comprimida no perfeito cilindro e gritando fantasmas de fumo. Tem de ser mágico tudo isto. Pensei. Fumar é esta linda acrobacia que termina na planície irreal.

Por isto, no outro dia, que era uma noite corrijo, quis fazer algo lindo. Porque me caíam no dorso as culpas da injustiça que apunhala o mundo. Porque queria colocar o pé no líquido morno da transcendência. E para isso precisava de um truque.

O céu tinha estrelas e chovia calor. Ininterruptamente.

Fumar seria chamar o silêncio e dar o olhar à paisagem. O fumo carrega algo de Deus. A cor da labareda que aspirámos com sofreguidão e pressa. Cuspimos o verbo evaporado e mudo. Saído da prova do nosso corpo. Manchado dele desde o início.

Talvez seja esse primordial elemento da existência que, ao possuir-nos na cerimónia do tabaco, dita em nós uma alteração criativa. O sopro. E a tontura é, no fundo, um embaraço da estrutura face ao arrojo divino que entra por nós no circuito da respiração.

Juntei estes argumentos àquela noite em que queria absorver o céu sem filtros. E fui mesmo comprar os cigarros. Na pequena dose possível.

A tremenda eficácia da publicidade da saúde desceu a cancela. Impedida de transpor a fronteira que me separa do outro lado, fiquei na areia do bom comportamento. Contemplando o homem moribundo que não parava de morrer na fotografia.

A aversão primordial ao sofrimento sobrepôs-se altaneira às minhas considerações mágicas. Sem Deus e sem fumo, deitei-me na tranquilidade cinzenta.

1 Comentário

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Uma resposta a Ilusões

  1. Gostei desta tua deambulação pelo fumo!
    Até breve, no laboratório de escrita!

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