Esta expressão contabilística da Administração Pública ajudou-me a definir um sentimento histórico difuso que carrego comigo.
Desde há muito que sinto uma atracção desmesurada pelas décadas portuguesas vividas sob o mando e desmando do Estado Novo. Procuro-lhes todas as sombras e contornos com um carinho, até pouco, injustificável.
Não faço a apologia do regime. A escuridão política em geral não me arranca suspiros. E tão pouco sinto que seja qualquer glória ou valentia que determine este permanente soluçar da alma. Há um amor que me empurra para aquela conjuntura e para a sua arrastada duração.
No outro dia, em mais uma sessão de leitura de José Cardoso Pires, encontrei-me na Lisboa de 1968. As mulheres já se emancipavam em segredo nas fumaças dos cigarros e os comunistas há largos anos que manobravam na clandestinidade. Aproximava-se a queda e a primavera que lhe seguiria como que por curso natural.
À medida que ia acompanhando o regresso do personagem Diogo Senna ao apartamento de família no rebordo do Jardim Constantino, dei-me conta da razão de ser dos meus amores históricos: a minha linhagem, a entidade ontológica “eu” alongada na impessoalidade do tempo.
Os anos findos dessa ditadura pequenina foram os anos da vida inicial e formativa dos principais actores familiares da minha existência. Eu comecei nos silêncios e amedrontamentos de meados do século XX. Contida na carne e nos acontecimentos que ditaram o percurso individual dos que foram a minha origem directa.
E, para além de ter herdado os genes das pessoas que palmilharam esses anos, compreendo hoje que lhes tomei o passado inadvertidamente e criei uma nostalgia que não lhes conheço.
Ir atrás procurar esses anos findos tornou-se uma obsessão. Porque na realidade eles não estão findos e permanecem actuantes na lógica profunda que ajudaram a construir. Minha e de todos nós. Tanto que cavalgo em busca desse meu país de há anos. Como se tivesse querido estar sempre presente. Num canto, a anotar as ausências.