Caveat 2012

Começámos a escavar em ti um túnel. Como medida primeira.

Os prenúncios que te antecederam falavam de rendas negras a cobrir o mundo. Inexoravelmente, fomo-nos aproximando encandeados e aos tropeções. As mãos adiantadas na extensão dos braços (sempre esta ilusão de podermos parar o destino). O teu primeiro minuto, inocente, percebeu que te acusavam de um odor sulfúrico. Alguns sábios alertaram para que talvez não fosse teu. Mas, na verdade, a nuvem vermelha alaranjada acompanha-te e caminha ao teu lado. Podes provar que estás limpo? Já te fizémos cruel. Depositámos um pesado ónus sobre a ainda leve inexistência dos teus dias.

Na sabedoria conjunta que forjámos nos jornais demos-te como anquiloso personagem do tempo. Vens roubar a alegria que tínhamos. És mítico e feroz. Na solidão dos teus quatro números a trotarem em formação equestre. 

Esperámos-te com as foices viradas do avesso. Espreitavam o  peito que lhes oferecíamos. O nosso. Tu és o indizível tempo. E, embora, te demos o nosso ódio, julgamos-te incapaz de agência moral. Time can do no wrong.

Nós é que nos fomos transformando naquilo que temíamos em ti. E condenámo-nos a viver somente a escuridão de ti. No túnel que perfuramos na barriga dos teus sonhos.  Hoje és 2012 e aí não nos vergamos. Vamos cumprir o que as pitonisas de cobre gritaram pressentir nos teus 365 véus. Com os olhos infectados de tanta amargura. Recebemos-te com rancor no parto nocturno. Nem nos demos a oportunidade de olhar para ti.

Vem 2012, mostra-nos como nos enganámos.

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