A memória somos nós. José Mauro de Vasconcelos sou eu. Apesar de ter sido um homem, num país gigante. Ele sou eu porque há dois livros. Dois poemas longos sobre a inocência e o crescimento que enchem a minha memória. Eu. A minha mão não se apoiaria no papel, neste momento, com este cálculo de força, se outra recordação tivesse de momentos antigos. Se não tivesse existido em mim um pé de laranja lima ou uma canoa. Sem esses empreendimentos da ternura, o Outro seria outro e o seu rosto não teria tanta candura. Eu não sentiria o mesmo respeito. E os eléctricos não invocariam a lembrança do bom Portuga. Eu seria menos verde, menos rio.
Mas não. Mesmo depois da sua morte em 1984, eu conheci-o e negociámos a amizade. Sem enganos. No recato que se impõe ao relacionamento entre as gerações distantes.
Ele foi generoso na vida eterna que a escrita lhe ofereceu. Tomou-me pela mão e levou-me um pouco além da linha da partida. Não foi o exemplo de Jesus que me ensinou a amar as pessoas. Chorei a cada epifania, feliz por poder sofrer na beleza dos livros.