A caminho do nosso bairro La Tahona usamos a Ruta Interbalnearia. A mesma que usam os veraneantes para chegar à pressa a José Ignacio ou a Punta del Este. Às praias do Atlântico Sul. Aos lugares bonitos que ajudam a esquecer o calor da cidade. Ou tão somente o seu esgar cinzento. Al Este, apregoam todos os sinais.
Para trás fica Montevideu. Tímida menina. Escondida sob as árvores que se curvam em piedade.
Todos os dias saio da cidade para ir pousar no campo. Digo adeus à melancolia urbana e vou para Este. Onde o ar se respira com o prazer das flores. E o ferro betonado fala na paisagem com comedimento. Receoso do pasto verde que se arroga todo o espaço.
Numa destas viagens, parei no semáforo para virar à esquerda. Ia a jornada na puberdade do meio-dia. O calor, enfeitiçado pelo inferno, parecia querer incendiar o tempo. Eu e a minha filha ignorámos as ameaças e ficámos quietas no carro. Ela na proximidade do sono e eu na abstracção das imagens sem sentido. Revendo sem compromisso os pormenores do carro. Até que fixei a visão no espelho retrovisor.
A imagem composta que encontrei entusiasmou-me. A cara pequenina e serena da Sophia era um arco irreal por onde desfilavam os carros. E apesar de perpassada pelas máquinas em velocidade, a ideia facial da Sophia estava linda e inteira. Como se a estrada alcatroada que irrompia pelo plano projectado no seu rosto fosse tão somente a linha do tempo que se tornava discurso. A História falava na Sophia com voz rectilínea e tom motorizado. Aproveitando-se das credulidades da infância e da sua generosidade. Que nem todos aceitamos ser oráculo. Mais a mais sujeitos à astúcia do acaso.
A luz verde do semáforo desfez o encanto. Reiniciámos a marcha e perdeu-se o posicionamento profético. Seguimos muito caladas pelo Camino de los Horneros. Em direcção a casa.