Outubro 29, 2008...1:55 pm

É-se de muitas maneiras

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Nas viagens de metro costumo ser só ouvidos para os outros. Sento-me ou fico em pé e disponho-me para tudo o que está ao meu redor. O resultado mais característico é envolver-me silenciosamente na conversa de outros passageiros ou ponderar obsessivamente sobre um determinado rosto.

Há um tempo atrás, de manhã, concentrei-me em duas pessoas que seguiam no banco oposto ao meu. Uma Senhora com um saco de plástico e um exemplar da revista Caras, e, mesmo ao lado, um Senhor vagamente grisalho, que usava colete. Não havia conversa entre eles. Não havia mesmo nada, apesar do bigode manchado que se reflectia na janela da carruagem.

 Deixei-me somente repousar na tranquila normalidade que era a  deles e entretive-me a imaginar  o que procuraria a Senhora na Caras, que relação teria ela com as figuras do imaginário social. Gostaria delas, ter-lhes-ia ódio ou vontade de vingança, quereria ser como elas?

Quanto ao Senhor, num curto golpe de vista, fiz dele um rei de ninguém. Só lhe imaginei um filho e um casamento de gelo, inundado por muitos tremoços e canecas. Era o bigode que me influenciava. E talvez a corrente que não sei explicar.

Quando chegámos ao Marquês de Pombal, ajeitei a saia para sair. À minha frente, apenas a Senhora se levantava. Aproveitando o mesmo concerto de músculos, disse enigmaticamente : “Adeus, Pai”. Ao que o Senhor retorquiu com um olhar bondoso.

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