Será que o meu pai se recorda dos dias em que eu o esperava na paragem de autocarro?
Agora que me comprometi definitivamente com os transportes públicos, lembro-me com frequência desses dias em que me ia sentar no banco da paragem da Quinta da Luz e de lá montava guarda à chegada dos autocarros. Queria ver o meu pai e gostava daquele ritual de espera, de pensamento e de acolhimento.
Ainda não encontrei ninguém a fazer o mesmo, mas tenho alguma esperança. Nomeadamente, rezo para que um dia seja um dos meus filhos a dar-me esse pequenino presente.
Vejo, porém, que a pressa e a insegurança de hoje se revelam pouco compatíveis com rituais de entrega nas noites já escuras de Inverno ou mesmo no lusco-fusco do Verão. E há também a questão da eficiência: para quê ir esperar alguém na paragem de autocarro ou do metro se rapidamente a pessoa chegará a casa, onde o aconchego é maior?
Pois, a casa fechou-se nas quatro paredes. Já não há casa possível que a aura dos nossos corpos possa construir lá fora, ao ar livre e ameaçador. Quando eu ia esperar o meu pai, levava-lhe a casa mais perto, ou pelo menos assim o entendia. Queria dizer-lhe: chegaste mais cedo, já estou aqui. Esta rua é apenas um pormenor físico que juntos vamos transpor.
Só o carro desempenha esta função de casa. Nós desistimos disso.
