Junho 24, 2008...11:05 am

As reuniões

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Por dever de ofício, participo em várias reuniões. Em volta de várias mesas e quase invariavelmente em salas com ar condicionado, tenho tido a possibilidade de conhecer as mais diversas pessoas.

Feliz ou infelizmente, nessas ocasiões, sofro de uma disfunção profissional tremenda. Enquanto mantenho um nível de vigília mínimo relativamente ao discurso sintetizado na agenda de trabalho, voo em direcção às pessoas que não conheço e, qual fantasma inconveniente, demoro-me a apreciá-las.

Não raro, apaixono-me por toda a gente. Porque quase sempre, vistas do meu ângulo preferido, as pessoas são seres misteriosos e atractivos. Refiro-me à perspectiva de um observador que se coloca de tal forma que consegue ver o perfil dos olhos do observado e assim comunga do seu abraço ao mundo.

Logo de início, não há olho humano que não adquira uma cor e um brilho particulares quando visto desta posição. Podendo nós compreender a abóbada de cristal que cobre e protege o olho, apercebemo-nos de imediato dos jogos de luz e profundidade que ela permite e enfatiza.  Numa réplica quase perfeita das ilusões da água, quando sobre ela se derrama o sol. 

Esta percepção da pequenina abóbada do olho dá-nos também a ideia de um refúgio, eu diria de um palácio, de um lugar onde sabemos residir aquele último reduto do Outro absolutamente incaptável pelo Eu. Não nos esquecemos nunca de que “os olhos são o espelho da alma”. Nessa altura, os efeitos cromáticos, já de si grandiosos, aliam-se aos efeitos dramáticos do teatro relacional. Um imenso espectáculo de adivinhas. Quem é aquela pessoa? Em que pensa? Em que pensou? Como me vê a mim?

E depois não se trata apenas de contemplar os olhos. Há que atender à proximidade das rugas; ao cansaço que, de perfil, não se esconde; um cabelo que por esquecimento se encontra fora de ordem; a mão pejada ou não de jóias; a espontaneidade do sorriso.

Sobretudo, nas minha reuniões, tenho um sentimento agudo da particular humanidade de cada um dos intervenientes. Se têm de sair mais cedo para ir buscar os filhos ou se querem continuar ali para evitar uma temida solidão. É nisto que penso na maior parte das vezes, enquanto me esforço por manter o ouvido profissional ligado. Nas mesas cheias de pessoas a discutir em nome de nações. 

 

3 Comentários

  • que lindo!

  • A mim acontece-me frequentemente observar as pessoas na rua ou no metro e pensar como serão as suas vidas, as suas alegrias, tristezas, ambições… É impressionante a percepção de que cada ser humano é uma vida.

  • Querida Joana:
    Conheci ontem, e troquei algumas palavras com a doce Yann, aquela somali, jurada de morte pelos fanáticos muçulmanos. Ela esteve em Porto Alegre e não deixei passar essa rara oportunidade de escutá-la.
    Lembrei-me de ti. E só por isso, te deixo um alô aqui, lugar que adoro andar quando estou na Intenet. Me enches de emoção.
    Abraços,
    Dione.


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