Maio 13, 2007...2:24 pm

O mercado

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Domingo de manhã. Um filho que foge da missa. Um marido a calcular o ângulo do sol. Uma amiga vizinha gentil. Foi esta a combinação que hoje me conduziu à experiência do mercado das Galinheiras.
Esqueçamos o medo e o desprezo que, geralmente, nos merece o nome. Galinheiras figura em muitas das nossas memórias como um dos bairros em que nunca entraremos, onde o crime se confunde com a vida, onde as pessoas são feias e se vestem mal. Galinheiras é sinónimo do que não se quer, do que existe lá fora do círculo apertado do nosso conforto social. Galinheiras são os Outros, os que não são, não pensam, não agem e não sonham como nós.
Hoje pisei a linha da diferença e até arrastei para a aventura o Tobias.
O mercado, que vive no pó da terra fininha e amarelada, alvoroçada pelo vento e pelas manobras dos carros, é uma evidente confusão de pessoas, cães, carros e carrinhas. Bem no topo de uma colina de Lisboa, olhando melancolicamente o rio.
Dividiram-se os vendedores em ruas e, na aparente desordem de tendas, reina uma lógica de desenho urbanístico.
Apenas visitei as ruas da comida que, infelizmente, acolhem, também, os malfadados bares de bifanas, de onde, acredito, apenas podem sair intoxicações alimentares ou um aparelho digestivo muito forte e resistente. As frutas e vegetais eram muitos, de muitas variedades. O pão estava embalado em sacos de plástico e jazia imóvel junto dos bolos, animados e apelativos. Fiquei-me pela compra de laranjas e de bananas, as minhas frutas do coração. E, já à saída, não resisti aos cajus e aos figos secos.
No mercado das Galinheiras, as pessoas são tragicamente estranhas. Mas são pessoas e não inspiram medo. Há felicidade ali, e famílias que se amam, e pessoas que riem por serem felizes. Os amigos encontram-se nas vielas do mercado e trocam notícias. Os pequeninos correm por ali. Desceu naquele sítio uma certa paz do Senhor.
Já vi mais mundo vazio no brilho do Carrefour.

4 Comentários

  • Eu também já vi mais mundo vazio nos Carrefour …

  • Se quiseres, para a próxima, apanhamos o metro até à Mouraria. Tem o defeito de ser um pouco escuro, mas compro lá coisas que não dispenso no meu portfolio de receitas de fusão (classificação do meu irmão), e que não encontro noutros sítios.

  • Caríssima Joana,
    Por mero acaso acabei por cair no seu blog e achei que devia deixar um comentário ou talvez mais… Actualmente trabalho bem próximo do mercado das Galinheiras e não há pior cenário do que na segunda-feira pela manhã verificar aquele local… A imundice, a loucura das gaivotas em busca de alimento… São restos de vegetais… Caixas… Enfim, o lixo.
    Nunca fui ao mercado nos tais famosos domingos de feira, mas já tive a oportunidade de passar pelo minipreço de Camarate e pensei que estava em Bagdad!!! Penso que nunca terei coragem de passear com o meu Tobias por tal local… Ainda se assusta…

  • Acredito que o mercado deixe um rasto desagradável. Eu vi o que quis ver. Como faço, fazemos todos, em tantas outras situações.
    Eu quis ver pessoas e quis ver bondade. Quis ver a minha normalidade.
    Não me é difícil compreender que alguém que olhe para as Galinheiras regularmente e com os olhos da lucidez práctica, leia o meu post e me ache uma tontinha desfasada da realidade. Por vezes, preciso de ser assim.


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