O meu filho tem vivido episódios recorrentes do que agora se chama, com charme técnico, “bullying”. Não se trata, graças a Deus, de qualquer perseguição concertada e malévola. São os pequenos anos na largura da sua alienação a distribuirem espinhos como se repartissem berlindes, sem qualquer cuidado.
Ontem houve um desenvolvimento feliz. Inesperado, até. Depois de outro episódio de infantil violência, e com algum tempo de permeio, o meu filho dirigiu-se ao malfeitor. Rodeados por muitos outros meninos, os dois encararam-se.
Não houve o silêncio dos filmes. Manteve-se o burburinho salutar das grandes congregações. Mas a voz do Bias impôs-se ao momento e expôs, na sombra do seu cabelo loiro, uma propensão humana para a dignidade. “Porqué me pegaste?”.
Ao outro menino, falho de argumentação, restou verter o embaraço na cápsula do insulto: “estúpido”. Para logo se afastar envolto em fúrias. Apercebendo-se da pequena vitória da ousadia, o Bias sorriu.
A dose exacta de coragem de que necessitou para abafar o tremor do medo, desconheço-a. Não há medida que nos diga a intensidade do esforço humano. Terá sido uma força telúrica que o resgatou da paralisia de presa. E que, no mesmo sopro, explicou ao seu corpo a composição física do respeito.
De todas as palavras de apoio e orientação que, nos últimos anos, fui dando ao meu menino, não me lembro de ter mencionado a coragem. Falei-lhe em paz, em virar as costas, em desvalorizar, em olhar para a frente, em ignorar. Em nenhuma ocasião sublinhei a bravura do confronto, por medo que a sua infância confundisse a força com a violência.
E no entanto, sem que eu suspeitasse, o Bias já sentia nos ossos a honradez. Uma linguagem tão profunda que, em lugar de se prestar às palavras, irradia do corpo. Um menino humanamente de pé. A tactear a textura da vida na esperança de encontrar a sua terra firme. Com coragem. Com imensa coragem. A enfrentar, não outro menino, mas o terrível medo que nos manipula.