Andei a remexer em todos os apontamentos caseiros que coleccionei enquanto preparava a minha tese de mestrado. Deu-me uma grande saudade. Não só da tese mas das convicções que me pareciam, na altura, mais efervescentes.
Continuo a acreditar que o lugar de um animal não é numa cadeia de produção, num laboratório ou num circo. Odeio ir ao jardim zoológico com o Bias, porque aquela montagem me parte o coração, é indigna e hipócrita. Tenho cuidado com aquilo que compro. Evito as marcas do sofrimento.
Mas eu sei que nada mudou. Ou muito pouco. Ainda se mata à pancada. As penas e as peles desprendem-se de coisas, não de sujeitos-de-uma-vida. Já não é aceitável sentir um estremecimento perante um casaco de vison. 98% dos animais continua a agonizar durante a sua curta vida. Longe, muito longe de nós. A Vaca que ri.
Agora, quando acordo durante a noite, já não ouço os gritos de milhões. Já não soçobro sob o peso da crueldade do mundo. Vou criando uma habituação à violência que não conhecia em mim. E vou contentando-me com o carpir das vítimas. Vou dizendo apenas “Que horror”.
Porquê? Bastar-me-á a abstenção do louco festim da carne? Bastar-me-á explicar a quem me pergunte que não quero compactuar com o negócio da desumanização e da violência?
Disseram-me um dia que esta minha vontade de resolver os problemas do mundo se resumia a uma tremenda falta de modéstia perante o mundo e Deus. Uma assunção de forças que obviamente não são as minhas. Um delírio de grandeza deste pequeno Eu.
Aceito, parcialmente, a acusação. Faltou-me, em determinado período, a tranquilidade de quem sabe e aceita os seus limites. Faltou-me a perspectiva de ser somente um ser que também sofre, ao lado de tantos outros milhões. Faltou-me perceber que não compreendo tudo. E que sim, há mistérios como esse da maldade no mundo sob o olhar de um Deus que é Amor.
Todavia, não os posso esquecer. As pernas fracas a cambalearem nos camiões que os sacodem. O nariz a procurar ar fresco. Os olhos. Meu Deus, os olhos de vida pura. E depois, nos supermercados, nem um rasto de tudo o que foram. Só os quadrados bem embalados de carne bem vermelha, ou muito pálida. Tudo muito barato, sob as luzes de halogénio.
J. M Coetzee deu as seguintes palavras à sua imaginada Elizabeth Costello: ” The Heart is the seat of a faculty, sympathy, that allows us to share at times the being of another”. É mesmo assim, não é?