Janeiro 1, 2009

Os blogues também morrem

É o fim desta jóia de família. Escrevo-o com uma menina a dançar no útero e um menino a adormecer num quarto de paredes brancas. Este fim chegou nas mãos de muitas ausências. A soma dos dias vazios criou o desaparecimento. Nós aceitamo-lo.

Adeus.

Joana

Novembro 25, 2008

Poesia também

“Dark matter particles floating in the halos around galaxies would occasionally collide and annihilate one another in tiny fireballs of radiation and lighter particles…”

Novembro 6, 2008

Quem irá esquecer esta campanha?

obamccain4601

Novembro 4, 2008

Debate

Retomo um assunto sobre o qual escrevi em Dezembro de 2007. Ou seja, a razão por que a minha irmã abandonou a escola de ballet que frequentava.

O que foi dito à minha irmã, e mais tarde repetido à minha mãe, foi o seguinte: ” a Mariana dança muito bem, mas dadas as suas características físicas não lhe poderei confiar o papel de Alice”. O mistério reside nessas características físicas, que nunca foram especificadas.

Descontentes com esta actuação injustificada da Professora, os meus pais e a minha irmã decidiram que a melhor solução seria a de abandonar aquela escola.

Em Dezembro, eu estava convicta de que se tratava de uma situação gritante de descriminação baseada na cor da pele da minha irmã. Entretanto, depois dos vários comentários da Professora e de uma sua amiga, já não sinto uma certeza inabalável nesse meu julgamento. A motivação interior já pouco me interessa.

A Professora Ana Kohler parece-me ser, de facto, uma profissional comprometidíssima com a sua arte. Uma bailarina de alma cheia que pretendeu criar em Portugal um pólo de ensino da dança inovador e acolhedor. Uma mulher que tem um sonho e uma ambição, e as forças para os meter em acção.

Tudo isto é claro a quem trave conhecimento com a Senhora. Não me interessa nem um pouco questionar a pessoa e os méritos da sua vida.

No entanto, não obstante o manto de qualidades que lhe reconheço, houve uma falha humana que me é permitido apontar, sem qualquer intenção de calúnia pública (este pequenino fórum não é uma tribuna para o mundo). Assiste-me o direito de discordar de atitutes e decisões e de o escrever sem medo, desde que não falte à verdade.

E não falto nem faltei à verdade. Vi a minha irmã sofrer na sequência de uma decisão injusta e foi isso que denunciei, apontando pistas para o que poderia ter motivado tal injustiça.

Dizia eu que duvido agora da certeza do meu julgamento de Dezembro. De facto, apesar de manter a arbitrariedade inaceitável da decisão, questiono-me se foi a cor da pele da minha irmã ou outro aspecto igualmente sinistro que realmente motivou o recurso à expressão “características físicas” e o subsequente afastamento de um papel. Que plano escorregadio este. Como saberei eu distinguir entre preversidades íntimas?

No fim, fica apenas, para mim, a certeza de um acto injusto. E preocupa-me que não seja óbvia a lacuna da argumentação utilizada para informar a minha irmã e a minha mãe.  Que seja pacífico que os pais e um aluno não se possam insurgir contra uma decisão pouco convincente e ainda por cima indiciadora de critérios obscuros. Perante a técnica da dança, os leigos não falam. Que tropelias da ilusão. Como se este não fosse também um caso de essencial e humana justiça, daquela que desponta no peito de cada um independentemente da profissão que abraça.

As lágrimas da minha irmã, obviamente, secaram. Os 15 anos olham mais para o futuro do que para o passado. Os meus pais, mais calejados do que eu, já vivem com mais tranquilidade as pequenas injustiças do mundo. Remetem o sucedido para a geral desordem de tudo.

Fico eu, que não compreendo nem aceito certas passividades e certas confusões. É uma posição política esta que tenho. Embora não grite, gosto de escrever. Explicar por que razão discordo de algo. E deixar claro que há cânones preversos que merecem urgente alteração.

 

Novembro 1, 2008

Uma mulher preocupada

Pelas sete horas da manhã de Sábado, só uma mulher preocupada pode estar a pé. Não há planos de aventuras madrugadoras nem compromissos inadiáveis que requeiram a sua presença, e mesmo assim a mulher preocupada levantou-se, as finas luzes da penumbra revelam os olhos muito abertos e cansados. Os dentes dolorosamente cerrados ruminam sem movimento os seus segredos.

Às sete da manhã não há destino possível dentro de uma casa. De uma casa que ainda dorme e que não suporta o toque indiscreto do som. Há porventura a janela, que suga sem memória os sonhos. Mas não existe verdadeiro ponto de chegada, apenas um cruzamento imenso de proibições e de recolhimentos. Linhas e linhas de tempo não vivível. 

À mulher preocupada não resta outra opção do que a escolha cautelosa de um centro imaginário e a imobilidade no aconchego do seu perímetro. A paralisia das estátuas atormentadas. Dentro de quem bate um coração que perdeu, momentaneamente, o ritmo da esperança e se engalfinhou nos compassos desgovernados do desassossego.

Em breve uma pergunta a resgatará daquela prisão. “Mummy, onde estás?”. E ela acordará sincera, querendo ser tudo menos a preocupação ou os medos. Comporá o desalinho dos seus cabelos e corrigirá, não sem algum esforço, a expressão pesada que a manhã cravou no seu olhar. Por um filho faz-se tudo, até morrer.

Outubro 31, 2008

Pencil Faced People

Todos nós criamos categorias de pessoas. Inventamo-las para organização e deleite próprios e simplificamos, assim, o olhar caótico que deitamos sobre o mundo.

Eu tenho no coração uma particular categoria de seres: os pencil faced people. As pessoas que apresentam um determinado alinhamento de feições que as assemelha a generosos lápis de criança. São pessoas habitualmente discretas e tímidas, com uma certa propensão para cores fortes. Muitas vezes têm olhos pequeninos e piscos e sorriem com alguma dor. Imagino que levem, também, a mão ao peito com alguma insistência. Há algo de sofrimento na sua estrutura frágil.  

É só isto. Gosto de pessoas assim.

Como a ideia cresceu em mim em inglês, não há nada que me ponha correctamente este pensamento na língua lusa. Mas talvez pudesse dizer que são pessoas-de-rosto-de-lápis.

Outubro 29, 2008

É-se de muitas maneiras

Nas viagens de metro costumo ser só ouvidos para os outros. Sento-me ou fico em pé e disponho-me para tudo o que está ao meu redor. O resultado mais característico é envolver-me silenciosamente na conversa de outros passageiros ou ponderar obsessivamente sobre um determinado rosto.

Há um tempo atrás, de manhã, concentrei-me em duas pessoas que seguiam no banco oposto ao meu. Uma Senhora com um saco de plástico e um exemplar da revista Caras, e, mesmo ao lado, um Senhor vagamente grisalho, que usava colete. Não havia conversa entre eles. Não havia mesmo nada, apesar do bigode manchado que se reflectia na janela da carruagem.

 Deixei-me somente repousar na tranquila normalidade que era a  deles e entretive-me a imaginar  o que procuraria a Senhora na Caras, que relação teria ela com as figuras do imaginário social. Gostaria delas, ter-lhes-ia ódio ou vontade de vingança, quereria ser como elas?

Quanto ao Senhor, num curto golpe de vista, fiz dele um rei de ninguém. Só lhe imaginei um filho e um casamento de gelo, inundado por muitos tremoços e canecas. Era o bigode que me influenciava. E talvez a corrente que não sei explicar.

Quando chegámos ao Marquês de Pombal, ajeitei a saia para sair. À minha frente, apenas a Senhora se levantava. Aproveitando o mesmo concerto de músculos, disse enigmaticamente : “Adeus, Pai”. Ao que o Senhor retorquiu com um olhar bondoso.

Outubro 28, 2008

Regressando ao tema do Homeschooling

O Tobias estreou-se no Jardim de Infância há dois meses. Aparentemente contrariando as convicções que acalento relativamente ao ensino das crianças, nomeadamente as mais novas, corri a inscrevê-lo numa escola mal chegaram os três anos.

Tenho argumentos que sustentam a minha posição: dada a inconstância que se prevê na minha vida, entendi que seria melhor iniciá-lo desde já num sistema de ensino que fatalisticamente não será o português e que exigirá dele a compreensão de uma outra língua.

Assim, cheia de preocupações linguísticas, enlistei o meu Bias numa escola. Tive, contudo, o cuidado de reduzir ao mínimo o número de horas que ele lá passa. Estritamente a manhã. O resto do dia, passá-lo-á ele com o pai, em regime de descanso e de homeschooling.

Não estamos tristes com a experiência. Vemos que o Bias progride naquilo em que esperávamos que progredisse (a nova língua), mas sentimos a grande necessidade que ele ainda tem da casa, do mundo dele, do ritmo dele.

Sabemos também que aquilo que ele vai efectivamente aprendendo da vida (dos planetas ao nome dos insectos) somos nós que lhe ensinamos. Mas sobretudo, sentimos uma grande segurança da parte dele por ter sempre um pai ou uma mãe presente. E aos três anos, que mais interessa? 

Outubro 26, 2008

Receber os outros

Será que o meu pai se recorda dos dias em que eu o esperava na paragem de autocarro? 

Agora que me comprometi definitivamente com os transportes públicos, lembro-me com frequência desses dias em que me ia sentar no banco da paragem da Quinta da Luz e de lá montava guarda à chegada dos autocarros. Queria ver o meu pai e gostava daquele ritual de espera, de pensamento e de acolhimento. 

Ainda não encontrei ninguém a fazer o mesmo, mas tenho alguma esperança. Nomeadamente, rezo para que um dia seja um dos meus filhos a dar-me esse pequenino presente.

Vejo, porém, que a pressa e a insegurança de hoje se revelam pouco compatíveis com rituais de entrega nas noites já escuras de Inverno ou mesmo no lusco-fusco do Verão. E há também a questão da eficiência: para quê ir esperar alguém na paragem de autocarro ou do metro se rapidamente a pessoa chegará a casa, onde o aconchego é maior?

Pois, a casa fechou-se nas quatro paredes. Já não há casa possível que a aura dos nossos corpos possa construir lá fora, ao ar livre e ameaçador. Quando eu ia esperar o meu pai, levava-lhe a casa mais perto, ou pelo menos assim o entendia. Queria dizer-lhe: chegaste mais cedo, já estou aqui. Esta rua é apenas um pormenor físico que juntos vamos transpor.

Só o carro desempenha esta função de casa. Nós desistimos disso.

Outubro 13, 2008

Baby positive

Depois de 13 semanas, cheguei ao compromisso da revelação.

O que eu sabia desde o dia 18 de Agosto e que me iluminava de forma diferente o futuro, pode ser agora uma partilha… para quem quiser partilhar.

Mais um bebé. Mais um filho. Mais um amor.

As circunstâncias da minha segunda maternidade são marcadamente diferentes das da primeira. Agora tenho trinta anos. Agora trabalho. Agora olho com maior apreensão a reacção dos outros. Agora penso que não posso voltar a engordar 20 quilos. Agora tenho de fazer contas aos equilíbrios de afectos.

Não obstante, já me sinto um pouco mais imortal.