Janeiro 1, 2009

Os blogues também morrem

É o fim desta jóia de família. Escrevo-o com uma menina a dançar no útero e um menino a adormecer num quarto de paredes brancas. Este fim chegou nas mãos de muitas ausências. A soma dos dias vazios criou o desaparecimento. Nós aceitamo-lo.

Adeus.

Joana

Novembro 25, 2008

Poesia também

“Dark matter particles floating in the halos around galaxies would occasionally collide and annihilate one another in tiny fireballs of radiation and lighter particles…”

Novembro 6, 2008

Quem irá esquecer esta campanha?

obamccain4601

Novembro 1, 2008

Uma mulher preocupada

Pelas sete horas da manhã de Sábado, só uma mulher preocupada pode estar a pé. Não há planos de aventuras madrugadoras nem compromissos inadiáveis que requeiram a sua presença, e mesmo assim a mulher preocupada levantou-se, as finas luzes da penumbra revelam os olhos muito abertos e cansados. Os dentes dolorosamente cerrados ruminam sem movimento os seus segredos.

Às sete da manhã não há destino possível dentro de uma casa. De uma casa que ainda dorme e que não suporta o toque indiscreto do som. Há porventura a janela, que suga sem memória os sonhos. Mas não existe verdadeiro ponto de chegada, apenas um cruzamento imenso de proibições e de recolhimentos. Linhas e linhas de tempo não vivível. 

À mulher preocupada não resta outra opção do que a escolha cautelosa de um centro imaginário e a imobilidade no aconchego do seu perímetro. A paralisia das estátuas atormentadas. Dentro de quem bate um coração que perdeu, momentaneamente, o ritmo da esperança e se engalfinhou nos compassos desgovernados do desassossego.

Em breve uma pergunta a resgatará daquela prisão. “Mummy, onde estás?”. E ela acordará sincera, querendo ser tudo menos a preocupação ou os medos. Comporá o desalinho dos seus cabelos e corrigirá, não sem algum esforço, a expressão pesada que a manhã cravou no seu olhar. Por um filho faz-se tudo, até morrer.

Outubro 31, 2008

Pencil Faced People

Todos nós criamos categorias de pessoas. Inventamo-las para organização e deleite próprios e simplificamos, assim, o olhar caótico que deitamos sobre o mundo.

Eu tenho no coração uma particular categoria de seres: os pencil faced people. As pessoas que apresentam um determinado alinhamento de feições que as assemelha a generosos lápis de criança. São pessoas habitualmente discretas e tímidas, com uma certa propensão para cores fortes. Muitas vezes têm olhos pequeninos e piscos e sorriem com alguma dor. Imagino que levem, também, a mão ao peito com alguma insistência. Há algo de sofrimento na sua estrutura frágil.  

É só isto. Gosto de pessoas assim.

Como a ideia cresceu em mim em inglês, não há nada que me ponha correctamente este pensamento na língua lusa. Mas talvez pudesse dizer que são pessoas-de-rosto-de-lápis.

Outubro 29, 2008

É-se de muitas maneiras

Nas viagens de metro costumo ser só ouvidos para os outros. Sento-me ou fico em pé e disponho-me para tudo o que está ao meu redor. O resultado mais característico é envolver-me silenciosamente na conversa de outros passageiros ou ponderar obsessivamente sobre um determinado rosto.

Há um tempo atrás, de manhã, concentrei-me em duas pessoas que seguiam no banco oposto ao meu. Uma Senhora com um saco de plástico e um exemplar da revista Caras, e, mesmo ao lado, um Senhor vagamente grisalho, que usava colete. Não havia conversa entre eles. Não havia mesmo nada, apesar do bigode manchado que se reflectia na janela da carruagem.

 Deixei-me somente repousar na tranquila normalidade que era a  deles e entretive-me a imaginar  o que procuraria a Senhora na Caras, que relação teria ela com as figuras do imaginário social. Gostaria delas, ter-lhes-ia ódio ou vontade de vingança, quereria ser como elas?

Quanto ao Senhor, num curto golpe de vista, fiz dele um rei de ninguém. Só lhe imaginei um filho e um casamento de gelo, inundado por muitos tremoços e canecas. Era o bigode que me influenciava. E talvez a corrente que não sei explicar.

Quando chegámos ao Marquês de Pombal, ajeitei a saia para sair. À minha frente, apenas a Senhora se levantava. Aproveitando o mesmo concerto de músculos, disse enigmaticamente : “Adeus, Pai”. Ao que o Senhor retorquiu com um olhar bondoso.

Outubro 28, 2008

Regressando ao tema do Homeschooling

O Tobias estreou-se no Jardim de Infância há dois meses. Aparentemente contrariando as convicções que acalento relativamente ao ensino das crianças, nomeadamente as mais novas, corri a inscrevê-lo numa escola mal chegaram os três anos.

Tenho argumentos que sustentam a minha posição: dada a inconstância que se prevê na minha vida, entendi que seria melhor iniciá-lo desde já num sistema de ensino que fatalisticamente não será o português e que exigirá dele a compreensão de uma outra língua.

Assim, cheia de preocupações linguísticas, enlistei o meu Bias numa escola. Tive, contudo, o cuidado de reduzir ao mínimo o número de horas que ele lá passa. Estritamente a manhã. O resto do dia, passá-lo-á ele com o pai, em regime de descanso e de homeschooling.

Não estamos tristes com a experiência. Vemos que o Bias progride naquilo em que esperávamos que progredisse (a nova língua), mas sentimos a grande necessidade que ele ainda tem da casa, do mundo dele, do ritmo dele.

Sabemos também que aquilo que ele vai efectivamente aprendendo da vida (dos planetas ao nome dos insectos) somos nós que lhe ensinamos. Mas sobretudo, sentimos uma grande segurança da parte dele por ter sempre um pai ou uma mãe presente. E aos três anos, que mais interessa? 

Outubro 26, 2008

Receber os outros

Será que o meu pai se recorda dos dias em que eu o esperava na paragem de autocarro? 

Agora que me comprometi definitivamente com os transportes públicos, lembro-me com frequência desses dias em que me ia sentar no banco da paragem da Quinta da Luz e de lá montava guarda à chegada dos autocarros. Queria ver o meu pai e gostava daquele ritual de espera, de pensamento e de acolhimento. 

Ainda não encontrei ninguém a fazer o mesmo, mas tenho alguma esperança. Nomeadamente, rezo para que um dia seja um dos meus filhos a dar-me esse pequenino presente.

Vejo, porém, que a pressa e a insegurança de hoje se revelam pouco compatíveis com rituais de entrega nas noites já escuras de Inverno ou mesmo no lusco-fusco do Verão. E há também a questão da eficiência: para quê ir esperar alguém na paragem de autocarro ou do metro se rapidamente a pessoa chegará a casa, onde o aconchego é maior?

Pois, a casa fechou-se nas quatro paredes. Já não há casa possível que a aura dos nossos corpos possa construir lá fora, ao ar livre e ameaçador. Quando eu ia esperar o meu pai, levava-lhe a casa mais perto, ou pelo menos assim o entendia. Queria dizer-lhe: chegaste mais cedo, já estou aqui. Esta rua é apenas um pormenor físico que juntos vamos transpor.

Só o carro desempenha esta função de casa. Nós desistimos disso.

Outubro 13, 2008

Baby positive

Depois de 13 semanas, cheguei ao compromisso da revelação.

O que eu sabia desde o dia 18 de Agosto e que me iluminava de forma diferente o futuro, pode ser agora uma partilha… para quem quiser partilhar.

Mais um bebé. Mais um filho. Mais um amor.

As circunstâncias da minha segunda maternidade são marcadamente diferentes das da primeira. Agora tenho trinta anos. Agora trabalho. Agora olho com maior apreensão a reacção dos outros. Agora penso que não posso voltar a engordar 20 quilos. Agora tenho de fazer contas aos equilíbrios de afectos.

Não obstante, já me sinto um pouco mais imortal.

Agosto 12, 2008

De volta à minha tese

Andei a remexer em todos os apontamentos caseiros que coleccionei enquanto preparava a minha tese de mestrado. Deu-me uma grande saudade. Não só da tese mas das convicções que me pareciam, na altura, mais efervescentes. 

Continuo a acreditar que o lugar de um animal não é numa cadeia de produção, num laboratório ou num circo. Odeio ir ao jardim zoológico com o Bias, porque aquela montagem me parte o coração, é indigna e hipócrita. Tenho cuidado com aquilo que compro. Evito as marcas do sofrimento. 

Mas eu sei que nada mudou. Ou muito pouco. Ainda se mata à pancada. As penas e as peles desprendem-se de coisas, não de sujeitos-de-uma-vida. Já não é aceitável sentir um estremecimento perante um casaco de vison. 98% dos animais continua a agonizar durante a sua curta vida. Longe, muito longe de nós. A Vaca que ri.  

Agora, quando acordo durante a noite, já não ouço os gritos de milhões. Já não soçobro sob o peso da crueldade do mundo. Vou criando uma habituação à violência que não conhecia em mim. E vou contentando-me com o carpir das vítimas. Vou dizendo apenas “Que horror”.

Porquê? Bastar-me-á a abstenção do louco festim da carne? Bastar-me-á explicar a quem me pergunte que não quero compactuar com o negócio da desumanização e da violência? 

Disseram-me um dia que esta minha vontade de resolver os problemas do mundo se resumia a uma tremenda falta de modéstia perante o mundo e Deus. Uma assunção de forças que obviamente não são as minhas. Um delírio de grandeza deste pequeno Eu.

Aceito, parcialmente, a acusação. Faltou-me, em determinado período, a tranquilidade de quem sabe e aceita os seus limites. Faltou-me a perspectiva de ser somente um ser que também sofre, ao lado de tantos outros milhões. Faltou-me perceber que não compreendo tudo. E que sim, há mistérios como esse da maldade no mundo sob o olhar de um Deus que é Amor.

Todavia, não os posso esquecer. As pernas fracas a cambalearem nos camiões que os sacodem. O nariz a procurar ar fresco. Os olhos. Meu Deus, os olhos de vida pura. E depois, nos supermercados, nem um rasto de tudo o que foram. Só os quadrados bem embalados de carne bem vermelha, ou muito pálida. Tudo muito barato, sob as luzes de halogénio.

J. M Coetzee deu as seguintes palavras à sua imaginada Elizabeth Costello: ” The Heart is the seat of a faculty, sympathy, that allows us to share at times the being of another”.  É mesmo assim, não é?