Retomo um assunto sobre o qual escrevi em Dezembro de 2007. Ou seja, a razão por que a minha irmã abandonou a escola de ballet que frequentava.
O que foi dito à minha irmã, e mais tarde repetido à minha mãe, foi o seguinte: ” a Mariana dança muito bem, mas dadas as suas características físicas não lhe poderei confiar o papel de Alice”. O mistério reside nessas características físicas, que nunca foram especificadas.
Descontentes com esta actuação injustificada da Professora, os meus pais e a minha irmã decidiram que a melhor solução seria a de abandonar aquela escola.
Em Dezembro, eu estava convicta de que se tratava de uma situação gritante de descriminação baseada na cor da pele da minha irmã. Entretanto, depois dos vários comentários da Professora e de uma sua amiga, já não sinto uma certeza inabalável nesse meu julgamento. A motivação interior já pouco me interessa.
A Professora Ana Kohler parece-me ser, de facto, uma profissional comprometidíssima com a sua arte. Uma bailarina de alma cheia que pretendeu criar em Portugal um pólo de ensino da dança inovador e acolhedor. Uma mulher que tem um sonho e uma ambição, e as forças para os meter em acção.
Tudo isto é claro a quem trave conhecimento com a Senhora. Não me interessa nem um pouco questionar a pessoa e os méritos da sua vida.
No entanto, não obstante o manto de qualidades que lhe reconheço, houve uma falha humana que me é permitido apontar, sem qualquer intenção de calúnia pública (este pequenino fórum não é uma tribuna para o mundo). Assiste-me o direito de discordar de atitutes e decisões e de o escrever sem medo, desde que não falte à verdade.
E não falto nem faltei à verdade. Vi a minha irmã sofrer na sequência de uma decisão injusta e foi isso que denunciei, apontando pistas para o que poderia ter motivado tal injustiça.
Dizia eu que duvido agora da certeza do meu julgamento de Dezembro. De facto, apesar de manter a arbitrariedade inaceitável da decisão, questiono-me se foi a cor da pele da minha irmã ou outro aspecto igualmente sinistro que realmente motivou o recurso à expressão “características físicas” e o subsequente afastamento de um papel. Que plano escorregadio este. Como saberei eu distinguir entre preversidades íntimas?
No fim, fica apenas, para mim, a certeza de um acto injusto. E preocupa-me que não seja óbvia a lacuna da argumentação utilizada para informar a minha irmã e a minha mãe. Que seja pacífico que os pais e um aluno não se possam insurgir contra uma decisão pouco convincente e ainda por cima indiciadora de critérios obscuros. Perante a técnica da dança, os leigos não falam. Que tropelias da ilusão. Como se este não fosse também um caso de essencial e humana justiça, daquela que desponta no peito de cada um independentemente da profissão que abraça.
As lágrimas da minha irmã, obviamente, secaram. Os 15 anos olham mais para o futuro do que para o passado. Os meus pais, mais calejados do que eu, já vivem com mais tranquilidade as pequenas injustiças do mundo. Remetem o sucedido para a geral desordem de tudo.
Fico eu, que não compreendo nem aceito certas passividades e certas confusões. É uma posição política esta que tenho. Embora não grite, gosto de escrever. Explicar por que razão discordo de algo. E deixar claro que há cânones preversos que merecem urgente alteração.